Marcio Kogan
Alguns anos atrás eu visitei a recém construida casa de minha amiga Helena Montanarini, uma das autoridades em moda no Brasil. Como muitas outras no bairro Jardim América, em São Paulo, a fachada da casa era quase invisível, protegida por portões de dois metros de altura. A implícita sensação de insegurança desapareceu imediatamente assim que entrei na casa. Uma longa caixa, de pé direito colossal, culminando em uma parede de vinte portas de vidro que se abriam para um solitário ipê amarelo, a casa era um oasis de paz. A mistura de pedra, madeira, concreto e vidro me fez lembrar das casas Neutra que eu conhecia apenas por fotos. “Quem projetou essa casa?” Perguntei. “Marcio Kogan. Ele é um gênio”. Foi a resposta de Helena. Após dois anos insistindo com Helena para nos apresentar, eu finalmente tive a oportunidade, em setembro, de conhecer Marcio e visitar seu estúdio em São Paulo.- Geoff Cook, sócio, Base.
Base: Descreva a si mesmo.
Marcio Kogan: Já começamos com uma pergunta impossível de se responder, mas o mais
importante sobre mim mesmo é que eu uso óculos.
Casa Corten, porta da frente e interior
B: Antes de arquitetura, você estudou cinema - como foi essa experiência, e
a transição para arquitetura?
MK: Perdi meu pai quando tinha 8 anos de idade e a partir daquele momento minha
vida se tornou um filme preto & branco. Aos 17 anos entro no cinema para
assistir “O Silêncio” de Ingmar Bergman, e percebo profundamente emocionado
como meus sentimentos estavam magicamente projetados naquela tela branca.
Pela primeira vez na vida compreendo o sentido da palavra “arte”. Saio do
cinema vendo o mundo novamente colorido. Começo a ter uma obsessão pelo
cinema e durante meus estudos de arquitetura já realizava curta-metragens e
sigo uma carreira paralela entre as duas profissões. Em 1998 realizo o longa
“Fogo & Paixão” e percebo que a minha vida seria a arquitetura,
principalmente pela incrível dificuldade de se fazer cinema no Brasil.
Casa Corten, escada para o terraço
B: O quê (ou quem) influenciou seu trabalho no início da sua carreira? E
hoje em dia?
MK: Acabei tendo uma formação multidisciplinar e quando me formei nunca tive uma
influência de arquitetos e sim de várias áreas como Ingmar Bergman, Federico
Fellini, Andy Warhol e o cineasta Frances Jacques Tati.
Casa Corten, sala de estar e lareira
B: Você tem preferência por algum tipo de projeto? (Exemplo: residências
privadas vs. espaços comerciais)
MK: Não tenho preferências. Prefiro desenhar um bercinho para alguém que eu ame
do que um grande edifício na Park Avenue para quem eu não tenha
identificação. Talvez por isso meu escritório seja pequeno, mas eu gosto
disto.
B: O Brasil vivenciou, no passado, momentos de glória em diversas áreas
criativas - os anos 50-70 para a música, o Cinema Novo, e é claro o período
da arquitetura modernista, com grandes nomes como Oscar Niemeyer e Lucio
Costa. A partir desse passado de “fama e glória”, como você vê a arquitetura
brasileira de hoje?
MK: A música brasileira dispensa qualquer comentário. Antonio Carlos Jobim,
Caetano Veloso, João Gilberto, Rita Lee, Chico Buarque, Marisa Monte e
dezenas de outros nomes são gênios.
Quanto a arquitetura, sou um fanático seguidor da modernista brasileira que
surgiu no final dos anos 30 e foi absolutamente sensacional. Nomes como
Lucio Costa (parque Guinle e Ministério da Educação e Saude), Oscar Niemeyer
(casa das Canoas e a Oca no Parque Ibirapuera), Affonso Reidy (Pedregulho),
Rino Levi (Banco na Sul Americano), Lina Bo Bardi (Casa de Vidro), Vilanova
Artigas (Ed. Louveira), entre outros, realizaram um trabalho inacreditável.
É interessante e difícil de compreender como um país como o Brasil, numa
época quase sem fluxo de informação, tivesse vários arquitetos e músicos
produzindo um repertório desta magnitude. O meu trabalho humildemente
revisita este momento mágico. Depois de um período apagado, até em virtude
de uma ressaca e conhecido como a “geração perdida” voltamos a ter vários
arquitetos realizando um grande trabalho. O justo reconhecimento
internacional de Paulo Mendes da Rocha é uma prova disto.
Casa C16H14O3, fachada e painél de policarbonato
B: Qual obra arquitetônica você gostaria de ter feito, e por quê?
MK: Obviamente o Pavilhão Barcelona. É a grande obra de arquitetura moderna.
Casa C16H14O3, fachada e painél de policarbonato
B: E por outro lado, se você pudesse escolher uma construção para demolir, explodir, e apagar da memória coletiva, qual seria?
MK: 99% da cidade de São Paulo.
B: Você trabalha principalmente no Brasil, mas tem uma presença no cenário
mundial. Você traz algo do Brasil no seu trabalho fora do país? Uma casa em
New Jersey teria um toque brasileiro?
MK: Eu sou brasileiro com muita influência do nosso modernismo, logo isto
transpira para todos os projetos, de uma forma não folclórica.
B: Você mora em São Paulo, uma cidade do tipo “ame ou odeie” para muitos. O
que você pensa de São Paulo?
MK: Gosto de falar sobre São Paulo. É na minha opinião uma das mais feias,
poluídas, violentas e caóticas cidades do mundo. Tem todos os defeitos que
podemos imaginar e a xingamos em todos os momentos. Irracionalmente ela é
sensacional, radiante e com uma vitalidade e energia fantásticas e
inigualável que dificilmente encontraremos em outras cidades. A mistura de
tudo monta uma personalidade única e apaixonante. Sou um viciado por São
Paulo.
Como diria Caetano Veloso:
“é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
da dura poesia concreta de tuas esquinas
da deselegância discreta de tuas meninas…”.
Seu futuro? Um caos ainda maior. Sua infra-estrutura é construída de forma muito mais lenta do que seu crescimento. É o melhor exemplo de ”love it or hate it”que existe.
Micasa vol.B, fachada e evento Lancôme
B: Que outras cidades/lugares você gosta, pela arquitetura ou por outros
motivos?
MK: Depois de São Paulo, minhas cidade predileta é Nova York (quase uma cidade
irmã de SP). Gosto de muita energia, caos e população multi-racial numa
cidade. Não agüento dois dias sem isto.
Micasa vol.B, conexão com loja existente e evento
B: Você tem planos de abrir escritórios em outras cidades?
MK: Se um dia existir esta oportunidade numa cidade que eu goste, vou adorar.
Maquetes para a exposição Happyland
B: Com Isay Weinfeld você desenvolveu a exposição Arquitetura e Humor, uma
crítica social a projetos de urbanismo no Brasil. Qual foi a motivação por
trás desses projetos “alternativos”? Você sente uma responsabilidade social,
como arquiteto, em um país como o Brasil?
MK: Nos meus estudos de arquitetura só fazia projetos conceituais, com muita
crítica social, arquitetônica e urbanística com uma dose de humor. Isto
dominou de tal forma meus estudos, que quando me formei arquiteto e de uma
forma bem polêmica eu não tinha a mínima idéia do que fazer no mundo real.
Realizei com o Isay 5 exposições (Arquitetura & Humor, Arquitetura
Ornitológica, Umore and Architektur, Happyland e happyland vol. 2, que
contavam esta história, sendo a última “Happyland” convidada pela 25ª.
Bienal de Artes de São Paulo em 2002. Era sobre uma cidade onde o terror e a
violência influenciam de forma radical na sua concepção e existência.
Arame farpado Happyland
B: Qual é a história por trás da figura do boneco-bebê?
MK: O humor e um pouco de subversão fazem parte da minha vida. O mascote
transmite isto com sua cara simpática e malandra. Recentemente usamos sua
figura numa placa de obra e em 24 horas já estava pichada com uns chifres de
diabo em sua cabeça.
Marcio Kogan com mascote